Wednesday, September 07, 2005

short story - 1

O portão rangeu levemente quando ele passou, mesmo não tendo encostado. Ele não se assustou com isso e nem quando viu um corvo morto, caído perto de um banco de pedra partido ao meio, sendo parcialmente devorado por insetos; já vivera tanto e chegara a ver tantas coisas. Cinco passos depois do portão, ele ouviu o ranger do metal novamente e se virou a tempo de vê-lo batendo com força na parte de concreto atrás dele. Sentia o cheiro pútrido mais forte do que antes, fazendo-o temer o que ele poderia ver novamente.
Olhou em volta como se procura-se algo para usar como arma, mas as únicas coisas em volta eram o corvo morto, o banco destruído e o chafariz de ganso cheio de teias de aranha. Os postes de luz também não serviria para alguma coisa; os vândalos já se encarregaram de retirar tudo de valor daqueles postes, que talvez um dia tivessem sido revestidos de prata e ouro. Nem a lâmpada sobrara para contar a estória.
A casa de dois andares a sua frente também não ajudava muito com o clima da situação: feita em um estilo Barroco bastante exagerado, ela parecia estar cercada de escuridão, em cada uma das voltas do corrimão da escada de entrada e em cada um dos drapiados das pequenas estátuas de anjos ao lado da porta. Ele pensou seriamente em desistir da idéia de adentrá-la, mas ele vinha sentindo aquele cheiro desde que virara a esquina que levava a essa casa. E essa esquina ficava a um quilômetro e meio da casa.
Quando emparelhou com os dois anjos cobertos de teias de aranha e estendeu a mão para tocar a maçaneta da porta, ele se sentiu triste. Triste como nunca havia se sentido antes. Sua mão paralisou no ato e ele encarou o anjo da direita. Uma expressão de calma cobria a face do anjo; com certeza seu autor trabalhara muito nela. Mas isso não diminuiu nem metade da tristeza e angústia que misteriosamente tomara conta dele. Sua mão quente tocou a maçaneta fria como gelo e ele entrou no saguão da casa praticamente no mesmo momento em que o guarda da região acendeu a lanterna diretamente para ele.
- Você aí. O que pensa que está fazendo?
Teve que pensar rápido para achar uma desculpa convincente. Infelizmente, ele nunca fora bom em pensar rápido. Permaneceu calado, com a mão esquerda levantada até a altura dos olhos, protegendo-os da luz da lanterna, e com a direita ainda presa à maçaneta.
- É propriedade privada. Saia daí antes que eu vá te buscar!
Ele abaixou a mão esquerda e soltou a maçaneta. Deu dois passos para trás, observando o enorme saguão a sua frente, imaginando porquê os donos da casa gastaram mais do terreno para o saguão do que para o resto da casa inteira. A luz moveu-se novamente e o guarda gritou para que ele voltasse, avisando que não ia pedir de novo.
Agradecendo pela boa educação dos seguranças da cidade, ele desceu a escadinha e andou rapidamente até o portão. Pensou em perguntar para o guarda de quem era a casa; ou melhor ainda, perguntar se ele também sentia o cheiro horrível. Mas por algum motivo a cara do guarda não parecia nada convidativa para perguntas.

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