Thursday, February 07, 2008

crôn. - 3

Meu psicólogo me disse para escrever um livro. Disse que seria ótimo para balancear a minha vida tediosa e vazia. Disse que eu teria algo para fazer 24h por dia ou apenas quando me desse na telha. Como não tinha a menor idéia sobre o que possivelmente duraria 200 páginas, ele me deu uma dica.
- Fale sobre o que você comeu no café-da-manhã.

Eu comi uma maçã, daquelas nem vermelhas, nem amarelas. Um pouco torta, não se parecia nem um pouco com a maçã da Branca de Neve. Estava bem dura, a maldita; pensei até em tirar a casca com a faca depois da primeira mordida. Enquanto enterrava meus dentes na segunda mordida, pensei em mudar para uma banana que certamente seria muito mais mastigável. Porém, lembrei do meu nutricionista dizendo que maçãs são boas para o organismo e que devemos comer pelo menos uma por dia; pelo menos eu deveria. Não sei o que há contra as bananas.
Girei a maçã 15° e dei outra mordida horizontal. Senti um pedaço da casca ficar preso entre meus dentes da frente e isso me irritou. Pensei em parar de mastigar a terceira mordida para tirá-lo e, assim, me sentir mais confortável mas lembrei que seria ilógico. Eu tiraria aquele pedaço e eventualmente outro entraria em seu lugar, me fazendo interromper tudo para retirá-lo também.
Na quarta mordida, girei a maçã um pouco mais, talvez uns 20°. Comecei a passar mentalmente os afazeres do dia: jogar a maçã no lixo, tomar banho, me vestir, dirigir até o trabalho, reclamar com o chefe sobre o atraso no salário, me sentar no meu cubículo, arquivar alguns processos, ligar para mamãe, jogar paciência, arquivar mais processos, dar em cima da Carlinha, voltar para o cubículo... perdi a concentração na maçã e sem querer engoli uma semente. Ignorei.
Girada de 20°, quinta mordida. Sair do trabalho, dirigir para o Habibs, pedir dez esfihas de carne e quatro esfihas de queijo, dirigir para casa, trancar a porta, trocar de roupa, comer as esfihas, reclamar que estão frias, ligar a TV e cochilar assistindo a reportagem sobre trabalho escravo de girafas africanas... ou qualquer coisa parecida com isso.
Sexta mordida: tive que repetir o local da quinta mordida porque não fui fundo o bastante. Fiquei com medo das sementes. Desta vez fui com uma precisão cirúrgica e retirei o máximo possível da fruta. Passei longe das sementes.
Na sétima mordida, eu tinha alcançado o lado que tinha começado a morder. Virei a maçã lateralmente para poder usar a escavadeira bucal. Armei os dentes, segurei firme as duas pontas salvas da maçã e girei 360° tirando toda a popa restante e ainda comestível. Não acertei as sementes, ponto pra mim.
Posicionei meu pé no pedal da lixeira e pisei moderadamente para que a tampa se abrisse e não quebrasse batendo na parede atrás. Joguei fora a maçã brincando de basquete sadicamente. Tirei o pé e a tampa fechou, automática. Fui para o chuveiro e tomei meu banho matinal, nem quente nem morno, algo bem preciso entre os dois que eu não saberia descrever como consigo obter - a prática me ensinou com o tempo. Escolhi uma das minhas camisas brancas, me vesti e pulei dentro do carro.

- Foi só isso, doutor. Não acho que sirva para escrever um livro. Ninguém vai querer saber da minha experiência com a maçã.
- Como foi a sua experiência com a maçã? - aqueles olhos pequenos atrás dos óculos quadrados me encaravam como se tudo no planeta dependesse da minha resposta agora.
- Deliciosa. Comi e a joguei fora depois. Ela está até agora lá.
- Você a comeu ou a jogou fora?
- Joguei fora o que sobrou.
- E como você acha que ela está se sentindo?
- Usada?
- Acha que ela atingiu seu propósito?
- Nem um pouco, fiquei faminto até a hora do almoço.
- Então acha que ela se sente feliz agora: usada mas, não obstante, sem cumprir seu propósito de vida ou, como queira, existência?
- Meu Deus, doutor, o que você bebeu?
- Responda a pergunta - eu parei e, pela primeira vez, me coloquei no lugar da maçã.
- ... ela agora é uma maçã frustrada.
- Então você admite que não a usou por completo, não é?
- Sim, sim! Admito!
- Como acha que ela está se sentindo? Usada, mal comida, no lixo e em estado de decomposição avançado?
- Deve estar se sentindo usada, mal comida e podre.
- Correto... - ele rabiscou sua agenda de anotações - acho que agora você já alcançou uma compreensão maior sobre ela e já tem capacidade de escrever o livro sozinho.

No dia seguinte, comecei a escrever o livro sobre a maçã que comi naquele café-da-manhã. Chega a ser irônico que hoje meu livro seja um bestseller, mas eu nunca achei que poderia encontrar tanto potencial em uma maçã.

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