Saturday, September 10, 2005

short story - 2.1

Começou quando ele passou a dormir na capela da mansão. Mamãe tinha construído quando nosso avô morreu de uma doença misteriosa; nenhum médico sabia informar o que era. Então mamãe comprou uma estátua de Jesus na cruz em tamanho real e não sabia aonde colocar, mas sabia que queria que ficasse perto do caixão do vovô. Não passou muitos dias até que fosse decidida a construção da capela.
Os nossos escravos limpavam a capela duas vezes por semana, mamãe trocava as velas e eu trocava os panos. Meu irmão raramente entrava na capela; não gostava de ver o caixão do nosso avô, a queme ele sempre fora muito apegado. Desde pequeno, brincavam os dois nas colinas a leste da nossa casa. Só entrou lá duas vezes: uma no enterro e outra na missa de 7 dias. Nem na missa de um ano ele entrou; ficou no quarto, observando a marcha de pessoas e escravos fúnebres saindo da capela, com a cabeça apoiada nos braços. Eu sei porque pude ver, quando estava voltando para casa ajudando mamãe a andar.
Um dia, nossa irmã do meio resolveu ir até a capela rezar. Chamou meu irmão, mas ele nunca respondia quando lhe perguntavam isso. Desta vez, estranhamente, ele aceitou. Silenciosamente, parou no meio de uma música melancólica e se levantou do piano, agarrando um casaco e saindo com a irmã. Mamãe estava no quarto quando isto aconteceu, mas eu estava na varanda da sala e fiquei surpresa. Vi os dois caminhando lentamente até a capela, na parte de trás da casa, e entrando; não era mentira. Continuei na varanda observando a entrada da capela, esperando até que ambos saíssem. Apostei comigo mesma que seria rápido e realmente foi. Mas quando a porta se abriu, somente minha irmã saiu.
Corri até a porta dos fundos para recepcioná-la e perguntei aonde meu irmão estava.
- Quis ficar lá - ela disse.
Deixei que seguisse para seu quarto, estranhando a situação. Dentro de mim, senti que devia ir até a capela e checar o estado do meu irmão, mas algo me impulsionou para voltar para dentro de casa. Talvez ele finalmente tivesse aceitado a passagem do nosso avô.
Começou a ficar constante: todas as semanas ele ia visitá-lo, às vezes com minha irmã, às vezes comigo, às vezes até mesmo sozinho. Mamãe já tinha desistido da vida e permanecia quase todos os dias no quarto, onde uma escrava levava comida em uma bandeja decorada com flores. As flores sempre saíam de lá murchas. Acho que a perda do pai afetou sua cabeça e fez com que ficasse um pouco maluca. A escrava que cuidava dela dizia que ela falava sobre luzes estranhas no quarto, mas achava que era apenas uma alucinação, considerando que as cortinas das janelas dela permaneciam fechadas durante todo dia e só eram abertas de noite, para ventilar o quarto.
As coisas cada vez ficavam mais estranhas. Um dia eu estava na sala, lendo, quando vi meu irmão passar sorrateiro por fora da casa, em direção à capela. Já havia se tornado normal as visitas constantes, mas por que passar sorrateiramente? Não queria que fosse visto. Por quê? Resolvi segui-lo até a capela.

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