Saturday, September 10, 2005

short story - 2.2

Por sorte, ele manteve a porta da capela aberta, facilitando minha entrada furtiva. Vi meu irmão ajoelhado na frente de um pedestal que ficava na frente da estátua de Jesus. Ele não parecia rezar, estava arrumando alguma coisa no chão. Dei a volta pela pilastra onde estava escondida e consegui ver o que era: vários panos e cobertas estavam estirados no chão, havia até mesmo um travesseiro. Arregalei meus olhos quando vi meu irmão se deitando sobre eles e se cobrindo com outro pano, assumindo uma posição de casulo e rapidamente parando de se mexer.
Quase tropecei no degrau atrás de mim. Voltei silenciosamente para a saída e corri para casa. Entrei esbaforida, mais sensível a sons do que nunca, olhando para cada canto. Não sei porquê tive essa sensação; essa sensação de estar sendo observada, a cada segundo. Talvez fosse algum tipo de presságio. Mas eu não fazia idéia do que aconteceria.
No dia seguinte, meu irmão não almoçou conosco. Mamãe permaneceu trancada no quarto e minha irmã tinha saido cedo para visitar uma amiga doente na vila próxima de nossa casa. Eu tentei ler meus livros para me distrair mas não conseguia parar de pensar no meu irmão e no que ele estava fazendo lá.
Deixei que passassem dias, semanas sem perguntar nada; sem me importar por fora, e me matando de curiosidade e preocupação por dentro. Meu irmão raramente era visto dentro de casa e minha irmã passou a visitar constantemente a casa da amiga. Mamãe continuou do mesmo jeito e segundo a escrava, com as mesmas alucinações.
Dois meses se passaram e eu estava sentada na varanda, apreciando a vista das colinas à noite. Ouvi um grito, seguido de um barulho de vidro quebrando, no andar de cima. Corri para dentro a tempo de ver a escrava da mamãe correr para fora da casa, praguejando em sua língua-mãe. Corri para o quarto de mamãe, com um aperto no peito. A porta estava escancarada e a janela também. Uma das cortinas estava caída no chão e a outra esvoaçava por causa do vento forte. O quarto estava banhado pela luz da lua apenas e pesadas cortinas cobriam a cama de minha mãe, provavelmente instaladas a pedido dela, sem que eu soubesse. Empurrei uma das cortinas e chamei mamãe. Não havia ninguém na cama.
- Mãe? - olhei em volta novamente. Voltei-me para a janela, temendo o pior. Passo a passo, cheguei até a borda da sacada do quarto e senti uma pontada no peito quando olhei para baixo.
Não consegui chorar. Apenas perdi a fala quando vi o corpo dela caído no chão. Corri até o telefone e chamei um médico. Não consegui chegar até o corpo dela então permaneci quieta, encolhida na sala. Não lembro o que passou pela minha cabeça naquela hora; talvez eu estivesse ocupada demais arregalando meus olhos para pensar em outra coisa.
Os médicos chegaram e eu apenas apontei o local. Silêncio. Um dos médicos voltou e me chamou.
- Acho que a senhora devia ir até lá.

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