short story - 2.3
Andei vagarosamente em direção ao local aonde estava o corpo, logo abaixo da sacada. Andei como se nunca quisesse chegar lá. Os médicos não estavam próximos do corpo mas olhavam para ele, formando uma meia lua em volta. Quando cheguei, eles se afastaram, dando-me a visão do meu irmão agachado, perto do corpo, segurando a mão de mamãe. Ela estava vestida com a camisola que meu avô dera de presentes de aniversário há muitos anos atrás e seu pescoço estava torcido, virado para meu irmão. Ele não apertava a mão dela, mas apenas segurava, para que não caísse, e olhava atentamente para o rosto dela. Cheguei perto deles e chamei meu irmão pelo nome. Ele respondeu levantando a cabeça e olhando para mim, com uma expressão indescritível. Talvez sentisse dor, ou infelicidade; quem sabe até alívio. Mas era uma expressão anormal.- Querido... eu não sei o que houve, eu... eu estava lá embaixo e... - parei quando vi sua expressão mudar e sua mão apertar a de mamãe. Ele se levantou devagar, me encarando com a mesma expressão alterada. Sua roupa estava suja e amassada, era a mesma que ele estava usando quando o vi dormir na capela pela primeira vez. Ele passou por cima do corpo e ficou a dois palmos de distância de mim.
- Por que?
A voz dele saiu rouca, como a voz de quem não fala há muitos meses, e baixa como uma brisa noturna. Talvez tenha sido mesmo uma brisa noturna.
- Como assim? Eu não sei o que houve...
- Eu acreditei em você. Eles disseram que você a protegeria.
- Eles? Eles quem? - mas ele não me respondeu, simplesmente chegou mais perto. Olhei em volta e vi as caras de questionamento dos médicos. Eu mesma queria fazer esta cara. Voltei a encarar meu irmão; de alguma forma, ele estava me prendendo o olhar.
- Eles disseram. Por que não a protegeu?!
Ele me empurrou com as mãos e eu tropecei na barra de meu vestido.
- Traidora. Traidora!
Até hoje eu me lembro do tom de voz dele. Lembro-me como se fosse ontem de como os médicos o seguraram e chamaram um carro para levá-lo para o hospital. Levaram o corpo também; o enterro foi alguns dias depois - sem meu irmão. Ele foi internado em um hospício. Gritava constantemente no hospital que eles viriam para salvá-lo e que fariam justiça. Não havia outra escolha.
Minha irmã ficou em casa por mais alguns dias; semanas talvez, mas acabou se mudando para a vila. Disse que não suportava dois enterros em uma mesma casa, que não suportava ver nossas lembranças apagadas assim.
Tentei conversar com meu irmão um dia. Fui até o hospício e sentei-me para conversar com ele. Ele estava calmo, estranhamente calmo, e não me chamou de traidora até eu perguntar quem eram eles.
- Pagarás. Eu sei que pagarás! Eles vão vir para vingá-la!
E tiveram que segurá-lo novamente. Os médicos do hospício pediram para que eu nunca mais o visitasse. Disseram que ele ficava alterado e violento quando mencionavam meu nome ou a simples idéia de que eu era irmã dele.
Então, nunca mais o visitei. Correspondia-me com minha irmã e ela contava muito pouco da sua vida. Não me preocupei muito com isso; minha cabeça estava ocupada demais tentando imaginar quem eram eles. Cheguei a entrar na capela de novo, logo depois que visitei meu irmão, para rezar pela minha mãe que acabara enterrada ao lado do caixão do vovô. Mas nunca mais foi igual.

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