Monday, September 12, 2005

short story - 3

Agachou-se e abraçou as pernas, ao lado da porta do banheiro. Tentou fazer o que sempre fazia quando estava triste ou nervosa: começou a imaginar o mundo sem ela. Começou a imaginar como seria morrer. Será que ia doer? Será que ela saberia que tinha morrido? Será que ia nascer novamente ou ver toda a sua vida passar como um filme na sua frente? E como sempre, parava de pensar nessas coisas tão tenebrosas e esquisitas.
Passava para as coisas mais felizes, mas não haviam coisas felizes. Tudo agora era cercado por um melancólico tom de azul. Nada mais a fascinava. Antes, quando andava na rua, via duas crianças correndo e chutando bola e achava tudo tão meigo. Via beija-flores dançando no ar - uma dança quase folclórica, rítmica - e pensava no quão feliz era por ter tudo isso.
Nada mais a impressionava. As coisas perderam o brilho que faziam delas coisas únicas. Muitas pessoas fraquejariam fácil ao sentirem isso; imaginariam que elas eram inúteis no mundo e perdiam a vontade de viver, mas ela não. Não faria isso pois prometeu que nunca ia abandonar o jogo. A hipótese de abandonar o jogo pode ter passado pela cabeça dela muitas vezes, pode até ser que ela tenha deixado parecer que realmente tinha abandonado o jogo, mas ela nunca abandonou. Continuava pensando nos passos decisivos para o jogo a cada segundo, e a cada segundo tinha mais certeza de que era o mais belo jogo que já tinha jogado.
Às vezes refletia, pensava bem e lembrava-se de que não era um jogo, que não se joga com esse tipo de coisa. Assim como estava pensando agora, agachada, indefesa, perto da porta da solidão - a um passo do abismo da loucura. Não sabia o que estava segurando-a mas agradecia fielmente. Agradecia todos os dias antes de dormir quando apagava a luz e contava seus segredos para o travesseiro. Sorria e esperava que alguém a ouvisse, que alguém levasse a sua mensagem - a mensagem que ela não podia entregar.
As coisas pequenas da vida que sempre a agradaram agora perderam o brilho da fascinação.
Mas espere! O que era aquele brilho? No quarto, bem no meio dele. Ela levantou os olhos marejados e vermelhos para focalizá-los no brilho. Ela não sabia o que era, mas era tão bonito. Causava uma impressão de felicidade, de calma e tolerância - de paz. Ela enxugou uma lágrima e tentou tocar o brilho com o mesmo dedo; mas o brilho de afastou, voando gentilmente, como se dissesse "siga-me". E ela o seguiu até as cobertas de sua própria cama. Deitou-se e procurou pelo brilho, vasculhando as cobertas. Ela não achou o brilho; o pontinho de luz se desfizera, como num passe de mágica. Mas ela encontrou uma outra coisa na cama.
Uma balinha de pêssego com creme de leite.

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