Tuesday, September 20, 2005

short story - 2.5

A partir daquela visita, a capela começou a parecer mais sinistra e aterrorizante do que nunca. Eles estavam lá afinal. Eu não acreditava em fé, em Deus ou em anjos; imagine acreditar em visões. Mas admito que senti medo verdadeiro, pois o que quer que fosse, levara meu irmão à loucura.
Mudei-me de lá e menos de 3 meses depois da visita à minha irmã, mesmo sabendo que a casa era da família há anos e que mamãe nunca sequer cogitara a idéia de vendê-la. Mas mamãe não estava mais lá, nem meu irmão, e tudo era culpa daquela casa. Ou ao menos era o que eu achava. No dia de minha mudança, entre na sala térrea para checar tudo e encontrei o piano do meu irmão. Lembrei de quando nos sentávamos - mamãe, vovô, minha irmã e eu - para ouvir meu irmão tocando. Passei a mão no banco do piano melancolicamente, quase como esperando que pudesse trazer as lembranças de volta. Por um breve momento, tive certeza de ter ouvido as melodias estonteantes do meu irmão novamente.
Saí antes que essas memórias derramassem lágrimas em meu rosto e me retirei do terreno confiante. Confiante de que estava fazendo o certo.

Vinte anos depois e aqui escrevo essa estória. O motivo é difícil de explicar detalhadamente. Talvez eu soubesse, bem no fundo, que essa estória deveria ser publicada algum dia e que o grande público tinha direito de saber. Saber o quê, você me perguntará. Entre várias coisas, o grande público deve saber que algumas coisas que fazemos, jamais podem ser desfeitas.
Isto não é um alerta, nem tenho a intenção de transformá-lo em um aviso; mas espero que seja entendido como tal. Nesta pequena comunidade, mesmo passados vinte anos, persiste a curiosidade humana - fonte de nossa maior qualidade e do nosso maior inimigo. A mesma curiosidade que nos leva à descobrir o mundo, nos leva direto para a coincidência fatal. Digo-lhes, com plena consciência do significado da palavra "coincidência", que somos obrigados a nos encarar com ela - a qual prefiro chamar de "inevitabilidade" por motivos pessoais.
Minha intenção final é deixar registrado por algum meio que os acontecimentos recentemente relacionados ao terreno no qual minha casa já esteve suntuosamente erguida são de cunho espiritual; só entenderão realmente o que aconteceu lá com as três famílias falecidas quando entenderem perfeitamente que nem tudo neste mundo é científico. Certas coisas conseguem estar acima da compreensão humana. Acredito essa ser uma dessas.
Entretanto, deixo ao leitor a árdua tarefa de imaginar uma solução para este, com o perdão da palavra, mistério. E que não mais me incomodem, por saberem que é apenas com isso que posso cooperar e já estou fazendo mais do que devia.

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